CBDC: entenda sobre as moedas digitais emitidas por bancos centrais

No Brasil, moeda está em fase de testes pelo Banco Central e o real digital deve ser lançado até 2024

Por Paulo Carvalho  /  18 de janeiro de 2024
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O mercado financeiro vivencia uma transição para a economia digital e, por isso, muitos países estão desenvolvendo suas CBDC (Central Bank Digital Currencies). A sigla se refere a moeda digital emitida pelo Banco Central de um país, como o Drex no caso do Brasil.

Assim, uma CBDC é um ativo digital emitido e controlado por bancos centrais em todo o mundo. Mas, embora seja classificada como um ativo digital, ela não é uma criptomoeda.

O interesse em criar moedas digitais emitidas por bancos centrais (CBDCs) cresceu consideravelmente desde o início da pandemia provocada pelo novo coronavírus. De acordo com um relatório da plataforma Atlantic Council, 114 países estavam envolvidos em projetos de CBDCs em 2023

Embora parte desses projetos esteja em fase inicial de desenvolvimento, o interesse em CBDCs apresentou um crescimento superior a 300% quando comparado a maio de 2020. Assim, o número de países saltou de 35 para mais de 100 em menos de três anos.

Um dos maiores projetos de CBDC é o yuan digital (e-CNY). Enquanto a moeda brasileira está na versão piloto, a China começou a desenvolver a sua própria em 2019. Mais de 100 bilhões de unidades da moeda foram emitidas e mais de 260 milhões de chineses possuem carteiras digitais compatíveis com a moeda. Em 2022, atletas e espectadores usaram o e-CNY durante os Jogos de Inverno no país.

Conheça projetos de CBDCs no Brasil e em outros países.

O que é CBDC?

A sigla CBDC se refere a moedas digitais emitidas por bancos centrais. Cada país utiliza um tipo de tecnologia para emitir seu próprio dinheiro. Então, o processo de emissão pode variar.

A emissão da CBDC pode ser a partir das diretrizes do Banco Central responsável pelo projeto, parcerias entre bancos centrais de países distintos ou atrelando o preço a uma reserva do ativo. Para isso, basta depositar uma unidade da moeda fiduciária como o dólar, real ou euro em uma reserva.

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Quais são as aplicações?

Por representar uma versão digitalizada do dinheiro físico, a moeda digital controlada por bancos centrais é um ativo digital.

A expectativa é usar o CBDC para:

  • Forma de pagamento;
  • Envio de valores;
  • Transações transfronteiriças;
  • Câmbio.

Entretanto, o principal objetivo para criar a moeda digital controlada por bancos centrais é atender o comércio exterior e transações transfronteiriças.

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China usa yuan digital em negociação de gás e petróleo

A China foi um dos primeiros países no mundo a iniciar o desenvolvimento de sua própria CBDC. Antes do lançamento no mercado financeiro, foram feitos diversos testes com o yuan digital (e-CNY), incluindo transações transfronteiriças.

O país usou o ativo digital para negociar gás natural liquefeito (GNL) em março de 2023 e petróleo em outubro de 2023. A transação de gás aconteceu após a empresa TotalEnergies aceitar receber a CBDC chinesa, em uma negociação de GNL com a China National Offshore Oil Corporation (CNOOC).

A Bolsa de Petróleo e Gás Natural de Xangai (SHPGX) anunciou que a empresa PetroChina negociou cerca de 1 milhão de barris de petróleo com o yuan digital. Com o preço médio do barril de US$ 95, a transação foi de quase US$ 100 milhões usando a CBDC. Além da China, a Venezuela também já negociou petróleo usando uma moeda digital, que se chamava petro e que tinha o preço atrelado ao barril do combustível.

Segundo o China Daily, o uso da CDBC yuan digital está aumentando na China, principalmente para transações transfronteiriças. Somente no primeiro trimestre de 2023 foi movimentado cerca de US$ 1,39 bilhões de e-CNY em pagamentos internacionais. Inclusive, a China e os Emirados Árabes Unidos firmaram uma parceria para o desenvolvimento e uso de CBDCs. Os dois países fazem parte da mBrigde, uma ‘ponte’ para incentivar o uso de diferentes CBDCs em transações transfronteiriças.

Por que os BC estão desenvolvendo moedas digitais próprias?

Além da digitalização da economia, outro movimento impulsiona essa adoção virtual dos ativos de valor: a tokenização. Esse processo é responsável por criar a representação virtual de ativos físicos como bens, produtos, serviços e moedas fiduciárias.

Portanto, as CBDCs estão sendo desenvolvidas para atender a demanda de uma nova etapa da economia, onde o mercado cripto está se consolidando e o mercado financeiro está passando por uma reestruturação com o processo de tokenização de ativos.

Os países que compõem o G20 e o G7 estão acelerando a adoção de moedas digitais emitidas por bancos centrais, com a maioria em desenvolvimento final ou fase de testes. Alguns dos países que estão desenvolvendo CBDC própria são Jamaica, Índia, Tailândia, Austrália e Rússia. Além deles, o Banco Central Europeu (BCE) também está desenvolvendo uma versão digital do euro e o projeto deve ser testado na União Europeia em 2024.

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Quais são as diferenças entre CBDCs e stablecoins?

A primeira diferença está relacionada à tecnologia de cada ativo. Enquanto a maioria das CBDCs usam gerenciamento de dados descentralizados, as stablecoins usam a tecnologia blockchain. Ainda assim, existem CBDCs que usam a blockchain como sistema emissor de moedas digitais.

Além da tecnologia, a emissão difere por conta de como a reserva de valor é feita. No caso das stablecoins, os projetos contam com uma reserva de valor na moeda fiduciária na qual o ativo digital está atrelado. Enquanto isso, as CBDCs tem uma reserva de valor flexível que deve corresponder as condições de cada banco central responsável pela emissão do ativo.

Drex: saiba sobre o real digital

O Brasil faz parte do grupo de países que estão desenvolvendo sua própria CBDC. O projeto organizado pelo Banco Central se chama Drex, sigla de “Digital Real Eletrônico X”.

Entre 2022 e 2023, o real digital passou por testes envolvendo soluções financeiras criadas por meio do Lift, um programa de aceleração de soluções envolvendo a CBDC brasileira lançado no final de 2021. No início de 2023, o Lift apresentou um teste do real digital sendo emitido e transacionado por meio de uma blockchain pública. Na fase de testes, o Banco Central confirmou a segurança dos dados e a viabilidade do uso da tecnologia na emissão do real digital.

Os primeiros testes da versão piloto começaram em janeiro de 2024. Conforme o Banco Central foram mais de 500 transações com a moeda digital incluindo operações no mercado de varejo e atacado. Nessa primeira fase 11 instituições financeiras participaram como nós validadores da rede.

Portanto, as primeiras transações com o Drex já aconteceram em um ambiente de testes. O Banco Central também emitiu títulos públicos a partir do Drex, o que serviu para simulações de compra e venda desses títulos entre os participantes do consórcio do real digital.