Algo mudou no Fórum Blockchain deste ano em Moscou. O público era maior, as conversas mais afiadas e as apostas mais altas do que nunca. O maior e mais influente evento de blockchain da Rússia reuniu investidores, fundadores, reguladores e executivos de todo o mundo de língua russa e além.
Desta vez, o fórum também trouxe um convidado especial como atração principal — e um conjunto de conversas que foram muito além da especulação de mercado. A pergunta na mente de cada participante: para onde as criptomoedas vão a partir daqui?Algo mudou no Fórum Blockchain deste ano em Moscou. O público era maior, as conversas mais afiadas e as apostas mais altas do que nunca. O maior e mais influente evento de blockchain da Rússia reuniu investidores, fundadores, reguladores e executivos de todo o mundo de língua russa e além.
Desta vez, o fórum também trouxe um convidado especial como atração principal — e um conjunto de conversas que foram muito além da especulação de mercado. A pergunta na mente de cada participante: para onde as criptomoedas vão a partir daqui?
O Mercado Está Mais Difícil Agora — e Esse é o Ponto
A principal avaliação do fórum foi direta: a “era do dinheiro fácil” acabou. O que a substituiu é uma indústria mais complexa, mais fragmentada e, em última análise, mais madura — que exige verdadeira expertise para ser navegada.
Os derivativos agora representam de 70% a 80% do volume total de negociação de criptomoedas, ofuscando o tamanho dos mercados à vista (spot). O número de ativos negociáveis chega a milhares em uma única plataforma. DeFi, RWAs (Ativos do Mundo Real) tokenizados, ferramentas integradas de IA e produtos institucionais agora coexistem com as mecânicas básicas de compra e venda que a maioria das pessoas associa às criptomoedas.
Essa fragmentação não é uma falha — é um sinal de crescimento. Mas cria um desafio estratégico genuíno: como navegar em um mercado que agora é uma dúzia de mercados ao mesmo tempo? O consenso geral foi claro: a próxima vantagem competitiva irá para quem conseguir unificar o acesso através dessas camadas sem sacrificar a profundidade.
Para empresas e investidores na Rússia e na CEI (Comunidade dos Estados Independentes), essa complexidade chega em um momento de mudança estrutural significativa. O ambiente regulatório está se tornando mais rigoroso, a infraestrutura está amadurecendo e a janela para operar na ambiguidade está se fechando.
Mercados Emergentes vs. O Ocidente Regulamentado: Onde Construir a Seguir?
Um dos painéis mais debatidos do dia foi o “Estratégias de Expansão Global 2026”, onde fundadores e investidores bateram de frente sobre onde construir a seguir. A tensão entre duas cartilhas estratégicas muito diferentes definiu o ambiente.
O argumento a favor dos mercados emergentes é convincente e fundamentado em dados reais. O Sudeste Asiático, a América Latina e a África são os lugares onde as criptomoedas já estão resolvendo problemas reais — não como um ativo especulativo, mas como um trilho de pagamentos, um veículo de poupança e uma alternativa para sistemas bancários falhos.
As stablecoins não atreladas ao dólar são um exemplo vivo dessa mudança. Por exemplo, a stablecoin A7A5, atrelada ao rublo, já processou mais de US$ 100 bilhões em transações acumuladas em blockchain em menos de um ano de seu lançamento, com até 19% das transferências internacionais saindo da Rússia passando por sua infraestrutura de pagamento associada.
É difícil argumentar contra a lógica econômica. Quando um exportador vietnamita e um importador brasileiro fazem o acerto por meio de stablecoins locais, em vez de converter duas vezes pelo dólar, eles reduzem as taxas de 7% para cerca de 0,3%. Isso não é teórico — está acontecendo em grande escala, agora mesmo.
O argumento a favor do Ocidente regulamentado, por sua vez, baseia-se no capital institucional e na segurança jurídica. BlackRock, JPMorgan e Franklin Templeton estão construindo estruturas de compliance nos EUA e na UE antes de se expandirem para outros lugares. Ambos os caminhos têm seus méritos. O debate é sobre a sequência de ações — e o timing pode ser tudo.
As Criptomoedas Estão Deixando a Zona Cinzenta na Rússia
Para os participantes do mercado russo, a sessão mais consequente do dia foi sobre a nova legislação. A mensagem foi direta e inequívoca: os negócios com criptomoedas na Rússia agora têm uma estrutura legal, e operar na zona cinzenta não é mais viável.
Novas regras governam os ativos financeiros digitais (AFDs), a mineração licenciada e as liquidações transfronteiriças. Bancos e blockchain estão operando juntos. Eles estão sendo integrados a uma nova arquitetura para o sistema financeiro da Rússia, com os AFDs como um instrumento reconhecido e as redes Ethereum e Tron já incorporadas em fluxos de pagamentos do mundo real.
O caminho regulatório que está sendo finalizado tem como meta a implementação total até 1º de julho de 2026. Ele inclui licenciamento obrigatório para exchanges, um limite anual de compras para investidores não qualificados e restrições contra plataformas estrangeiras — um modelo projetado para trazer a negociação de criptomoedas para um ecossistema doméstico supervisionado.
A mineração legal foi abordada em profundidade, e as apostas são significativas. A Rússia é o segundo maior país do mundo em mineração de bitcoin, comandando aproximadamente 16% a 17% do hashrate global. A posição competitiva do país é impulsionada por energia hidrelétrica abundante, gás natural e um clima frio — com a mineração industrial consumindo cerca de 16 bilhões de kWh anualmente, concentrada na Sibéria.
As novas regulamentações agora definem o uso de energia, tratamento tributário e requisitos de licenciamento para os mineradores. Para os operadores que estavam trabalhando em ambiguidade legal, a mensagem do fórum foi: adapte-se ou saia. Para aqueles que cumprem as regras, a vantagem é real: a vantagem do custo de energia da Rússia não vai desaparecer.
Leia mais: Você vai para o Brasil? 9 lugares para pagar com criptomoedas e stablecoins
Agentes de IA, Atletas em Cripto e o Convidado Que Roubou a Cena
A agenda do fórum foi deliberadamente mais ampla do que puramente finanças — e isso ficou evidente. Uma sessão dedicada à IA nos negócios defendeu uma mudança fundamental na forma como as empresas devem pensar sobre automação.
O argumento foi preciso e vale a reflexão: o objetivo não é mais automatizar tarefas, mas gerenciar agentes de IA. Um agente opera com certo grau de autonomia — ele lida com fluxos de trabalho, toma decisões dentro de parâmetros definidos e escala sem a necessidade de aumentar o quadro de funcionários. As empresas que ainda pensam na IA apenas como uma ferramenta de produtividade já estão ficando para trás.
O painel sobre atletas no mercado cripto foi mais polarizador, e intencionalmente. A questão em pauta era: a entrada de celebridades do esporte na Web3 é um sinal de adoção em massa ou uma repetição do ciclo de hype dos NFTs? Atletas trazem público, e o público traz liquidez. Se o produto subjacente é real ou não, claro, é uma questão à parte.
Então, Errol Musk subiu ao palco. O pai do empreendedor de tecnologia mais comentado do mundo não decepcionou, entregando uma das conversas mais francas e realistas de todo o fórum.
Sua sessão — Liberdade, Hype e Controle: Quem Realmente Molda o Futuro das Criptomoedas? — centrou-se em um argumento central: a indústria cripto ainda é moldada muito mais por narrativas do que por fundamentos. As pessoas que controlam essa narrativa nem sempre são as mesmas que estão construindo a tecnologia.
Ele instigou o público a fazer perguntas mais difíceis: quem se beneficia de cada onda de hype, e quem é deixado para trás quando ela quebra? Não foi uma sessão confortável. Foi a sessão certa e necessária.
Do Dinheiro Físico ao USDT: A Realidade dos Pagamentos P2P em 2026
Um painel prático e bem fundamentado encerrou a trilha principal: o papel dos operadores de P2P na economia cripto de 2026. Para os usuários na Rússia e na CEI, o caminho do dinheiro em espécie para o USDT não é uma abstração — é a realidade operacional diária de um mercado onde o acesso bancário convencional às criptomoedas se tornou significativamente mais restrito.
A sessão foi honesta sobre os riscos. Os mercados P2P estão cada vez mais perigosos para usuários desinformados, com o aumento tanto de golpes quanto de exposição legal. Mas para empresas que precisam de capacidade de liquidação transfronteiriça imediatamente, o P2P continua sendo a infraestrutura de último recurso.
O painel explorou como a regulação, ferramentas melhores e rampas de acesso (on-ramps) licenciadas estão construindo alternativas estruturadas gradualmente. A direção é clara, mesmo que o cronograma não seja. A zona cinzenta está se fechando — e os mercados P2P irão evoluir para canais compatíveis com a regulação ou serão substituídos por eles.
O mercado de stablecoins fornece um contexto útil aqui. A capitalização combinada atingiu aproximadamente US$ 310 bilhões no início de 2026, com as stablecoins não atreladas ao dólar ainda representando menos de 0,5% desse total — mas crescendo rapidamente à medida que a demanda regional acelera e a infraestrutura local amadurece.
Leia mais: O Que São Stablecoins? Um Guia Completo Sobre Como Funcionam e Seus Casos de Uso
O Que Vem Por Aí
O Fórum Blockchain 2026 foi uma verdadeira sessão de trabalho — afiada, às vezes desconfortável e estrategicamente focada — sobre para onde a indústria irá a partir daqui.
Os temas que definiram o evento não vão desaparecer: regulação, fragmentação do mercado, integração de IA, stablecoins como infraestrutura e a contínua luta pelo controle da narrativa. Cada um desses pontos moldará os próximos 18 meses de desenvolvimento cripto — na Rússia e globalmente.
A Rússia está esculpindo uma posição específica e deliberada no cenário cripto global: um mercado regulamentado, porém independente, com sua própria infraestrutura de stablecoins, sua própria economia de mineração e suas próprias instituições se adaptando aos trilhos da blockchain. Se essa posição se tornará uma força estrutural ou uma restrição dependerá do que a indústria fará com os marcos regulatórios que estão sendo estabelecidos agora.
Uma coisa ficou clara ao sair do fórum: as decisões que estão sendo tomadas neste exato momento — por reguladores, fundadores, mineradores e investidores — definirão o formato das criptomoedas na Rússia nos próximos anos. A conversa está apenas começando. Continuaremos a trazer insights diretamente das pessoas que estão moldando este mercado.




