Com a ascensão do trabalho remoto e de equipes globais, a forma de receber a remuneração também está evoluindo. Nesse sentido, o pagamento de salários com criptomoedas surge como uma alternativa que oferece flexibilidade e novas possibilidades financeiras tanto para colaboradores quanto para empresas.
De fato, essa tendência já se reflete em números: um levantamento da Deel, empresa de recrutamento remoto, mostrou que 5% dos salários na América Latina em 2022 foram pagos em criptoativos, com destaque para a Argentina, onde a instabilidade econômica impulsionou a adoção.
Com isso, surgem questões importantes: como essa modalidade funciona na prática? É legal no Brasil? Quais são os reais benefícios e riscos? A seguir explicaremos tudo o que você precisa saber sobre o recebimento de salário em moedas digitais.
- Como funciona o pagamento de salário em cripto?
- Onde e como receber seu salário em cripto?
- Vantagens de receber o salário em moedas digitais
- Para o colaborador
- Para a empresa
- É legal receber salário em cripto no Brasil? A questão da CLT
- A regra para funcionários CLT
- A flexibilidade para PJs, freelancers e prestadores de serviço
- Pontos de atenção: volatilidade e imposto de renda
- Uma nova fronteira na remuneração
Como funciona o pagamento de salário em cripto?
O pagamento de salário em cripto é uma transferência direta de ativos digitais da empresa para o colaborador e pode ser usado desde bitcoin (BTC) e stablecoins até memecoins.
Geralmente há um acordo que pode assumir diferentes formatos:
- Pagamento integral: 100% da remuneração em uma criptomoeda específica;
- Pagamento parcial: uma parte em cripto e o restante em moeda fiduciária;
- Bônus e PLR: a remuneração variável é paga em ativos digitais, enquanto o salário fixo permanece em moeda fiduciária.
Uma das áreas em que essa alternativa de pagamento com cripto está se popularizando é o universo dos esportes. Por exemplo, jogadores como Messi já receberam parte de seus salários com moedas digitais; no caso do argentino, ele recebia uma parcela dos mais de US$ 40 milhões anuais do PSG em fan tokens.
Da mesma forma, o lutador de UFC Matheus Nicolau, que recebe parte de suas premiações em bitcoin, mencionou as vantagens da agilidade do sistema em entrevista ao Estadão: “As negociações acontecem muito rápido, sem depender do funcionamento do banco. Receber em cripto facilitou o controle do meu dinheiro.”
Contudo, essa tendência não se limita ao mundo esportivo. Nos Estados Unidos, a adoção também se reflete na esfera pública, com a Prefeitura de Miami aprovando o pagamento de salários de servidores em bitcoin já em 2021.
No ano seguinte, a América do Norte registrou um aumento de 7% na participação geral dos pagamentos em criptomoedas, envolvendo desde jogadores de futebol americano até os prefeitos de cidades como Nova York e Miami.
Onde e como receber seu salário em cripto?
O processo para receber o pagamento é simples. Primeiro, o colaborador e a empresa definem qual criptoativo será usado. Em seguida, o colaborador informa o endereço público de sua carteira digital, e a empresa realiza a transferência. Após a validação na blockchain, os fundos ficam disponíveis.
A principal escolha que o colaborador precisa fazer é onde receber esses fundos. Existem duas opções principais:
- Corretora (Exchange): esta é a alternativa mais prática para quem planeja converter parte do salário em moeda fiduciária. Como a plataforma já integra as ferramentas de negociação e saque, o processo para transformar os criptoativos em dinheiro na conta bancária é mais rápido e direto.
- Carteira pessoal (Wallet): utilizar uma carteira pessoal, seja um aplicativo no celular (hot wallet) ou um dispositivo físico (cold wallet), oferece autocustódia total. Isso significa que apenas você tem o controle sobre as chaves privadas e, consequentemente, sobre seus fundos, sem depender de um intermediário.
Leia mais: Cold wallets e hot wallets: qual a melhor no mercado cripto?
Vantagens de receber o salário em moedas digitais
Os benefícios dessa modalidade vão além da simples inovação, trazendo soluções práticas para desafios financeiros.
Para o colaborador
- Proteção contra a inflação: em cenários de desvalorização da moeda local, receber em criptomoeda pode facilitar a proteção do poder de compra.
- Eficiência em remessas internacionais: para quem trabalha remotamente para empresas estrangeiras, receber em cripto elimina a burocracia, as altas taxas e a demora das transferências bancárias internacionais.
- Potencial de valorização: receber em um ativo como o bitcoin funciona como um investimento automático, com potencial de valorização do capital ao longo do tempo.
- Autocustódia: ao receber em uma carteira pessoal, o colaborador tem o controle total sobre seus fundos, ou seja, não depende de intermediários bancários para acessar ou movimentar seu dinheiro.
Para a empresa
- Atração e retenção de talentos: oferecer o pagamento em cripto funciona como um forte diferencial competitivo para atrair e reter profissionais de tecnologia e da Web 3.0, afinal, eles valorizam a flexibilidade e a inovação.
- Eficiência e redução de custos em pagamentos globais: para empresas com equipes distribuídas pelo mundo, pagar em cripto simplifica muito a folha de pagamento. Dessa forma, unifica a moeda, elimina intermediários e reduz os custos operacionais com taxas de transferência e câmbio, em comparação com os bancos tradicionais.
- Agilidade e segurança nas transações: a confirmação de pagamentos via blockchain é rápida e segura. A natureza irreversível das transações também elimina riscos associados a estornos e fraudes, mas também garante maior previsibilidade para o financeiro da empresa.
É legal receber salário em cripto no Brasil? A questão da CLT
Este é o ponto mais importante e que gera mais dúvidas. A resposta curta é: depende do seu regime de contratação.
A regra para funcionários CLT
A Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) no Brasil é clara ao estipular que o salário deve ser pago na moeda corrente do país, ou seja, em real. Como as criptomoedas não são a moeda oficial brasileira, o pagamento integral do salário de um funcionário com carteira assinada em criptoativos não é permitido pela legislação atual.
A flexibilidade para PJs, freelancers e prestadores de serviço
O cenário muda para quem não é CLT. Como afirma o especialista Julian Lanzadera, “o pagamento de expatriados ou de prestadores de serviço é perfeitamente legal com criptoativos”.
Então, contratos de prestação de serviço (PJ), pagamentos para freelancers ou acordos para recebimento de bônus e PLR têm total flexibilidade para serem pagos em cripto desde que haja acordo entre as partes.
Pontos de atenção: volatilidade e imposto de renda
Mesmo nos cenários permitidos, é crucial estar ciente dos riscos e das obrigações envolvidas. Em primeiro lugar, é preciso considerar o risco da volatilidade.
O principal desafio é a oscilação de preços. Por exemplo, um salário de 1 ETH pode valer R$ 20.000 em um dia e R$ 18.000 no outro. Por essa razão, a solução mais eficaz para neutralizar esse risco é optar por receber em stablecoins.
Além disso, existe a obrigação tributária. Receber o pagamento em cripto é um evento tributável e o valor em reais do ativo no momento do recebimento é considerado um rendimento que deve ser declarado no Imposto de Renda. Portanto, manter um registro de todas as transações é fundamental para estar em conformidade com a Receita Federal.
Uma nova fronteira na remuneração
Receber o salário em criptomoedas é uma tendência que reflete a digitalização da economia e do trabalho. Embora exija planejamento e conhecimento das regras, os benefícios de agilidade, proteção e potencial de investimento são claros. Com as ferramentas certas, como as stablecoins para evitar a volatilidade, é possível aproveitar essa inovação de forma segura e consciente.
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